quarta-feira, 2 de março de 2011

CARNAVAL


Encontrei um texto, extremamente bem escrito, que expõe precisamente o que penso sobre o relacionamento entre nós, cristãos, e o carnaval. Peço permissão aos que, como eu, são protestantes, mas, diferente de mim, não sabem extrair os pontos positivos e os posicionamentos salutares dos que professam a fé católica, e posto um texto de autoria do Monsenhor Jaelson, pároco da Basílica da nossa capital.



Fugindo da dicotomia simplista, dos rótulos previsíveis que taxam o carnaval como diabólico festival da carne ou, por outro lado, como algo maravilhoso, catarse popular, indispensável para ser feliz, o que o cristão pode pensar e fazer nesse período carnavalesco?

As opções são variadas: desde os retiros espirituais oferecidos em toda parte, acampamentos de evangelização, bloco gospel, congressos e mesmo a folia de rua com seus blocos infantis, da terceira idade como o festejado bloco de “Creusa Pires” capitaneado por Schilon Gama no corso da melhor idade, os cafuçus e afins.

Neste leque de opções, não necessariamente antagônicos, o cristão maduro saberá escolher o que lhe convém e se portar como tal. Certamente alguns não vão esquecer, e nem se deve, que há excessos no carnaval. De fato, bebederias, agressões, roubos, prostituições potencializam-se neste tempo.

A questão é: os danos condenam inevitavelmente as folias ou os foliões que não os praticam, mas se envolvem nos festejos? Na imprevisibilidade da vida, grandes concentrações sejam elas esportivas, culturais e até religiosas têm certa previsão de. distúrbios, onde há multidão mais facilmente se encontra má coração. E aqui chegamos a um ponto saliente: o coração!

A Bíblia diz que “...é do coração que provêm os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as impurezas, os furtos, os falsos testemunhos, as calúnias”. Mt 15,19 O Carnaval pode, certamente, projetar esses males com mais probabilidade. Mas a causa não é o carnaval, mas o “bicho maluco” nada beleza, a inclinação malfazeja em nosso coração.

Quer uma dica? Retirando-se ou brincando cuide bem do seu coração! E não se esqueça, em nenhuma ocasião, daquele que está à porta do teu coração e bate, Ele quer ser teu amigo seja no carnaval ou no tempo mal. E Nele, você pode confiar! Em todo tempo! Porque Jesus te ama e só sabe amar!


Monsenhor Jaelson

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A Massa de Manobra Evangélica e a Política


Os ditos "evangélicos" crescem a passos bastante largos no país, muito embora esse crescimento não reflita o avanço de preceitos bíblicos, isto é, verdadeiramente evangélicos, no sentido de postulados que carreguem a natureza do Evangelho, Jesus.

Grande parte dessa nova massa que formam a nossa população, que tem se dito "evangélica", mas que tem buscado adorar não a Deus, mas ao dinheiro, buscado não a cruz de Cristo, mas suas bênçãos, e que, muito distante da "sã doutrina" e do "culto racional", tem se entregado a rituais de "magia branca", já é há muito manipulada pelos líderes de oração da vez, pelos ditos "profetas", "apóstolos", bispos… Assim, não demorou muito para outra classe, a dos políticos, tão manipuladora de massas quanto, encontrar um excelente "nicho de mercado" nesse meio.

A estratégia é bem simples: busca-se ligar o candidato que está na frente, sem chance de ser derrubado por propostas e por idéias, e impossível de se vencer no debate, a práticas demoníacas. Aí, a massa acéfala "evangélica", se afasta veementemente do candidato, a despeito do mesmo ter reconhecidamente melhores serviços prestados e melhor plano de governo. A utilização do epíteto "satanista" é bem proposital e cai como uma luva para manipular essas pessoas, que já há muito são manipuladas pelos seus líderes através da mesma tática, a do maniqueísmo. A Bíblia nos ensina que Deus está acima do diabo, e o diabo só age quando Deus permite (vide livro de Jó), logo, não há uma eterna luta do "bem" contra o "mal", como pregam essas igrejas, mas sim, uma já consagrada vitória do "bem" sobre o "mal". O problema é que sem um "inimigo", uma "ameaça" forte, fica difícil colocar o ingrediente "medo", tão necessário para manipular as pessoas, então, mais uma vez, coloca-se a Bíblia de lado.

Isso acontece, por óbvio, porque essas pessoas não conhecem a Bíblia, não são como os crentes da Beréia, que checavam tudo que lhes era dito, até mesmo pelo apóstolo Paulo, pelo contrário, a Palavra de Deus serve apenas de adorno, para que possam desfilar pelas ruas como "espirituais", com a mesma embaixo do braço. Muitas, sequer, se atrevem a adentrar no Novo Testamento, preferindo sempre o Antigo. Se conhecessem os ensinamentos de Jesus Cristo, saberiam que os autores de verdadeiras práticas demoníacas não são os acusados de satanismo, mas sim os que os acusam, de forma sórdida e leviana e que, ao propagarem tais acusações, se portam como próprios instrumentos de Satanás. Cuidado, meu irmão!

Nosso Estado é laico, a Bíblia manda respeitarmos as leis, desde que elas não afrontem nossa Lei Maior, a própria Bíblia. Nesse ponto é onde está o engano, não há nada nela que diga "persiga outras religiões que não forem cristãs", ela respeita o estado laico, rejeita a teocracia, pois Cristo deixa claro que o Reino de Deus não é desta terra. Além de tudo isso, deixa um mandamento supremo pra os que o seguem "amar ao próximo como a si mesmo", assim, é obrigação do cristão amar o praticante da umbanda e do candomblé e, até mesmo, o satanista, pois amar apenas os cristãos, seria muito fácil, amar quem vos ama, até os pecadores fazem, como nos ensina Jesus em Lc 6:32-36 e em Mt 5:43-48.

Para concluir, gostaria de deixar três palavras do homem que dividiu a história em duas partes, Jesus Cristo. Uma para os que difamam, outra para os difamados e uma última para os propagadores das difamações.

Aos que difamam: "Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados; dai, e dar-se-vos-á; boa medida, recalcada, sacudida, transbordante, generosamente vos darão; porque com a medida que tiverdes medido vos medirão também." Lucas 6:37-38.

Aos que são difamados: "Digo-vos, porém, a vós outros que me ouvis: amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam; bendizei aos que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam. Ao que te bate numa face, oferece-lhe também a outra; e, ao que tirar a tua capa, deixa-o levar também a túnica; dá a todo o que te pede; e, se alguém levar o que é teu, não entres em demanda. Como quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles." Lucas 6:27-31.

Aos propagadores das difamações: "Não há árvore boa que dê mau fruto; nem tampouco árvore má que dê bom fruto. Porquanto cada árvore é conhecida pelo seu próprio fruto. Porque não se colhem figos de espinheiros, nem dos abrolhos se vindimam uvas. O homem bom do bom tesouro do coração tira o bem, e o mau do mau tesouro tira o mal; porque a boca fala do que está cheio o coração." Lucas 6:43-45.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Pensando com Calvino...



"Por outro lado, é notório que o homem jamais chega ao puro conhecimento de si mesmo até que haja antes contemplado a face de Deus, e da visão dele desça a examinar-se a si próprio.

Ora, sendo-nos o orgulho a todos ingênito, sempre a nós mesmos nos parecemos justos, e íntegros, e sábios, e santos, a menos que, em virtude de provas evidentes, sejamos convencidos de nossa injustiça, indignidade, insipiência e depravação.

Não somos, porém, assim convencidos, se atentamos apenas para nós mesmos e não também para o Senhor, que é o único parâmetro pelo qual se deve aferir este juízo. Pois, uma vez que somos todos por natureza propensos à hipocrisia, por isso qualquer vã aparência de justiça nos satisfaz amplamente em lugar da real justiça."

(João Calvino, As Institutas, Livro I, Capítulo I, pág. 48)


Reflitamos e guardemos essas mais do que sábias palavras tão atuais!


Mais informações sobre o maior pensador da Reforma: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Calvino

domingo, 28 de fevereiro de 2010

1ª Epístola de Paulo Aos BRASILEIROS


Não poderia deixar de postar esse brilhantíssimo texto do pastor metodista Daniel Rocha.

1ª Epístola de Paulo Aos BRASILEIROS - Cap. 1


Prefácio e Saudação

Paulo, apóstolo, não da parte de homens, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, a todos os santos e fiéis irmãos em Cristo Jesus, que se encontram em terras brasileiras, graça e paz a vós outros.

Exortações à Igreja

Rogo-vos para que não haja partidos entre vós. Mas vejo que é isso que está ocorrendo, pois uns dizem: eu sou de Malafaia; outros, de Macedo; outros, do Soares; outros de Feliciano; Quem é Malafaia? Quem é Soares? Quem são eles? [1] Por acaso Cristo está dividido? Não são neles que devemos postar nossos olhos, mas em Cristo, o único que morreu por nós.

Vejo que ainda sois meninos na fé quando o propósito de cada um é só buscar bênçãos para si, visando os próprios interesses e não o interesse do Corpo. Digo-vos que a maior benção já vos foi concedida na cruz quando fostes resgatados da morte e das trevas. Agora, aprendam a viver contentes e dar graças a Deus por tudo [2] .

Sinais e Prodígios

Assim como os judeus pediam sinais em minha época [3], há muitos que só pensam em prodígios e maravilhas: fazem correntes e marcam hora para as curas se efetuarem, e eu já havia advertido aos seus irmãos de Tessalônica que tão somente orassem o tempo todo, [4] pois apenas Deus é quem sabe a hora de atender. Eu mesmo deixei Trófimo doente em Mileto, [5] o amado Timóteo foi medicado enquanto esperava o Senhor curar sua gastrite, [6] e Epafrodito adoeceu mortalmente chegando às portas da morte [7]. Por que entre vós no Brasil seria diferente?

Outras admoestações

Estão fazendo rituais para amarrar demônios e declarar que as cidades do Brasil são do Senhor Jesus. Nunca vistes isso em mim e em nenhum momento em Cristo. Pelo contrário, preguei o evangelho em Éfeso, mas a cidade continuou seguindo a deusa Diana. No Areópago de Atenas riram e zombaram de minha pregação, e poucos aceitaram a palavra do evangelho; como eu iria dizer que Atenas era do Senhor Jesus? Em Corinto, a prostituição continuou a dominar a cidade, e em Roma, as orgias e as dissoluções da família até se intensificaram no decorrer dos anos. Dizer que Roma pertencia ao Senhor Jesus seria uma frase que levaria ao engano os poucos irmãos verdadeiramente convertidos.

Na verdade muito me esforcei e fiz de tudo para ver se conseguia salvar a alguns [8]. Nunca ensinei a reivindicar territórios, mas tão somente orava a Deus que me abrisse uma porta para pregar a Palavra [9] .

Cuidado com os falsos apóstolos

Há muitos homens gananciosos aparecendo no meio de vós no Brasil dizendo que são apóstolos e criando hierarquias para exercer domínio uns sobre os outros, coisa que nunca aceitei. Porque tanta preocupação com títulos? Por que ninguém se contenta em ser chamado simplesmente servo? Pois é isso é o que realmente importa. Saibam que há muitos obreiros fraudulentos transformando-se em apóstolos de Cristo [10].

Já vos advertira que depois da minha partida, entre vós penetrariam lobos vorazes que não poupariam o rebanho de Cristo [11], vós não lembrais disso brasileiros?

Sobre os dons espirituais

Soube que muitos estão preocupados com os dons. É verdade que eles são importantes, mas o Espírito concede a cada um conforme melhor lhe convém [12]. Tenho percebido que valorizam principalmente os dons sobrenaturais – como falar em línguas, visões, curas e revelações – e esquecem-se que ensinar bem as Escrituras, administrar com zelo as coisas de Deus e promover socorro aos necessitados também são dons espirituais [13].

Mas o que eu quero mesmo é que estejais buscando para suas vidas o fruto do Espírito. De nada adianta ter fé suficiente para curar pessoas, transportar montes e expulsar demônios se ficais devorando uns aos outros, [14] se não têm amor, se provocam rixas e intrigas entre si e dão mau testemunho.

Ofertas ao Senhor

Quanto às ofertas e sacrifícios, já falei por carta: no primeiro dia da semana cada um separe segundo sua prosperidade [15]. Nunca fiz leilão de bênçãos do Senhor, desafiando o povo a ofertar começando com 10 moedas de ouro até chegar ao que tinha um denário. O único sacrifício aceitável por Deus já foi feito na cruz pelo seu Filho Jesus, entendais isto brasileiros.

Quando Deus me der oportunidade de visitar-vos quero conhecer os que estão se enriquecendo com o Evangelho e enfrentar-lhes face a face. A piedade jamais pode ser fonte de lucro [16] e se continuarem nessa sórdida ganância haverão de sofrer muitas dores [17].

A busca da verdadeira maturidade

É imprescindível que manejem bem a Palavra, pois chegou ao meu conhecimento que esta é uma geração tão ignorante nela que estão sendo enganados por lobos vorazes, que trazem enganos e sofismas, e a esses, de boa mente, os tolerais [18]. Lembrem-se que quando preguei em Beréia o povo consultava a Palavra para ver se as coisas eram de fato assim [19]. Porque não fazeis vós o mesmo? Ora, os ardis de satanás vêm sempre disfarçados na pregação de um anjo de luz [20].

Vejo que entre vós há muitos acréscimos e deturpações daquilo que falei. Admoesto-vos a que não ultrapasseis o que está escrito [21] .

As saudações pessoais

Rogo-vos, irmãos, que noteis bem aqueles que provocam divisões e escândalos; afastai-vos deles, porque esses tais não servem a Cristo, e sim a seu próprio ventre [22], seus próprios interesses. Em breve vos vereis.

A bênção

A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós do Brasil [23].

REFERÊNCIAS [1] - 1Co 3.5 [2] - Fp 4.11; 1Ts 5.18 [3] - 1Co 1.22 [4] - 1Ts 5.17 [5] - 2Tm 4.20 [6] - 1Tm 5.23 [7] - Fp 2.27-30 [8] - 1Co 9.22 [9] - Cl 4.3 [10] - 1Co 11.3 [11] - At 20.29 [12] - 1Co 12.7 [13] - Rm 12.7-8 [14] - Gl 5.15 [15] - 1Co 16.2 [16] - 1Tm 6.5 [17] - 1Tm 6.10 [18] - 2Co 11.4 [19] - At 17.11 [20] - 2Co 11.14 [21] - 1Co 4.6 [22] - Rm 16.17-18 [23] - 2Co 13.13

sábado, 9 de janeiro de 2010

[Mais de] Cinco Pontos do [Meu] Calvinismo


TEXTO DE AUTORIA DO REV. AUGUSTUS NICODEMUS LOPES E POSTADO NO BLOG "O TEMPORA, O MORES"

Calvinistas estão entre as tradições religiosas mais mal compreendidas da história da Igreja. Sei perfeitamente que alguns deles fizeram por merecer. Há calvinistas que defendem suas convicções sem caridade, gentileza e sensibilidade para com quem diverge. Outros, não conseguem ouvir quem não seja calvinista. Não considero essas atitudes como intrínsecas ao calvinismo. As pessoas são assim porque lhes faltam domínio próprio e humildade, e não porque são calvinistas. Não há nada no calvinismo que exija que calvinistas sejam rudes, intransigentes, mal educados, excessivamente críticos e arrogantes.

Boa parte das acusações que têm sido feitas aos calvinistas, além de serem generalizações injustas, parecem proceder de uma falta de conhecimento adequado do que os calvinistas realmente acreditam. Como não falo por todos, vou dizer o que eu penso sobre alguns desses pontos mais polêmicos.

Para começar, o calvinismo não é um bloco monolítico. Há várias correntes dentro dele. Todas se vêem como legítimas herdeiras do legado de João Calvino, desde presbiterianos liberais até puritanos modernos. Considero-me um calvinista dentro da tradição teológica que elaborou e até hoje mantém a Confissão de Fé de Westminster, muito similar às demais confissões reformadas dos batistas, congregacionais, episcopais e reformados.

1 – Creio que Deus predestinou tudo o que acontece, mas não sou determinista. O Deus que determinou todas as coisas é um Deus pessoal, inteligente, que traçou seus planos infalíveis levando em conta a responsabilidade moral de suas criaturas. Ele não é uma força impessoal, como o destino. Não creio que os atos da vontade e da liberdade humanas sejam mera ilusão e que nossa sensação de liberdade ao cometê-los seja uma farsa, como o determinismo sugere. Eu acredito que as nossas decisões e escolhas são bem reais e que fazem a diferença. Elas não são uma brincadeira de mau gosto da parte de Deus. Os hipercalvinistas são deterministas quando negam a responsabilidade humana ou pregam a passividade dos cristãos diante de um futuro inexorável. Por desconhecer essa distinção, muitos pensam que todos os calvinistas são deterministas e que eles vêem o homem como um mero autômato.

2 – Creio que Deus é absolutamente soberano e onisciente sem que isso, contudo, anule a responsabilidade do homem diante dele. Para mim, isso é um mistério sem solução debaixo do sol. Não sei como Deus consegue ser soberano sem que a vontade de suas criaturas seja violentada. Apesar disto, convivo diariamente com essas duas verdades, pois vejo que estão reveladas lado a lado nas Escrituras, às vezes num mesmo capítulo e até num mesmo versículo!

3 – Encaro a relação entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana como sendo parte dos mistérios acerca do ser Deus, como a doutrina da Trindade e das duas naturezas de Cristo. A soberania de Deus e a responsabilidade humana têm que ser mantidas juntas num só corpo, sem mistura, sem confusão, sem fusão e sem diminuição de ambas.

4 – Creio que Deus predestinou desde a eternidade aqueles que irão se salvar e, ao mesmo tempo, oro pelos perdidos, evangelizo e contribuo para a obra missionária. Grandes missionários da história das missões eram calvinistas convictos. Calvinistas pregam sermões evangelísticos e instam para que os pecadores se arrependam e creiam. Se quiserem um bom exemplo, leiam O Spurgeon que Foi Esquecido, de Iain Murray, publicado pela PES. Nunca as minhas convicções sobre a predestinação me impediram de ir de porta em porta, oferecendo o Evangelho de Cristo a todos, sem exceção. Após minha conversão, e já calvinista, trabalhei como evangelista e plantador de igrejas durante vários anos, em Pernambuco.

5 – Creio que Deus já sabe, mas oro assim mesmo. Sei que ele ouve e responde, e que minhas orações fazem a diferença. Contudo, sei que ao final, através de minhas orações, Deus terá realizado toda a sua vontade. Não sei como ele faz isso. Mas, não me incomoda nem um pouco. Não creio que minha oração seja um movimento ilusório no tabuleiro da predestinação divina.

6 – Não creio que Deus predestinou todos para a salvação. Da mesma forma, não creio que ele foi injusto nem fez acepção de pessoas para com aqueles que não foram eleitos. Não creio que Deus tenha predestinado inocentes ao inferno, pois não há inocentes entre os membros da raça humana. E nem que ele tenha deixado de conceder sua graça a pessoas que mereciam recebê-la, pois igualmente não há pessoa alguma que mereça qualquer coisa de Deus, a não ser a justa condenação por seus pecados. Deus predestinou para a salvação pecadores perdidos, merecedores do inferno. Ao deixar de predestinar alguns, ele não cometeu injustiça alguma, no meu entender, pois não tinha qualquer obrigação moral, legal ou emocional de lhes oferecer qualquer coisa. Penso assim pois entendo que a Queda de Adão veio antes da predestinação na seqüência lógica (não na seqüência histórica) em que Deus elaborou o plano da salvação.

7 – Creio que Deus sabe o futuro, não porque previu o que ia acontecer, mas porque já determinou tudo que acontecerá. Por isso, entendo que a presciência de que a Bíblia fala é decorrente da predestinação, e não o contrário. Quem nega a predestinação e insiste somente na presciência de Deus com o alvo de proteger a liberdade do homem tem muitos problemas. Quem criou o que Deus previu? E, se Deus conhece antecipadamente a decisão livre que um homem vai tomar no futuro, então ela não é mais uma decisão livre. Nesse ponto, reconheço a coerência dos socinianos e dos teólogos relacionais, que sentiram a necessidade de negar não somente a soberania, mas também a presciência de Deus, para poderem afirmar a plena liberdade humana.

8 – Creio que apesar de ter decretado tudo que existe desde a eternidade, Deus acompanha a execução de seus planos dentro do tempo, e se comunica conosco nessa condição. Quando a Bíblia fala de um jeito que parece que Deus nem conhece o futuro e que muda de idéia o tempo todo, é Deus falando como se estivesse dentro do tempo e acompanhando em seqüência, ao nosso lado, os acontecimentos. É a única maneira pela qual ele pode se fazer compreensível a nós. Quem melhor explica isso é John Frame, no livro Nenhum Outro Deus, que vai ser lançado em março pela Editora Cultura Cristã. Minha esposa teve o privilégio de traduzir e eu de prefaciar essa obra, que será a primeira em português a combater a teologia relacional.

9 – Creio que Deus é soberano e bom, mas não tenho respostas lógicas e racionais para a contradição que parece haver entre um Deus soberano e bom que governa totalmente o universo, por um lado, e por outro, e a presença do mal nesse universo. Diante da perversidade e dos horrores desse mundo, alguns dizem que Deus é soberano mas não é bom, pois permite tudo isto. Outros, que ele é bom mas não é soberano, pois não consegue impedir tais coisas. Para mim, a Bíblia diz claramente que Deus não somente é soberano e bom – mas que ele é santo e odeia o mal. Ao mesmo tempo, a Bíblia reconhece a presença do mal do mundo e a realidade da dor e do sofrimento que esse mal traz. Ainda assim, não oferece qualquer explicação sobre como essas duas realidades podem existir ao mesmo tempo. Simplesmente pede que as recebamos, creiamos nelas e que vivamos na cereteza de que um dia ele haverá de extinguir completamente o mal e seus efeitos nesse mundo.

10 – Estou convencido que o calvinismo é o sistema doutrinário mais próximo daquele ensinado na Bíblia, ao mesmo tempo em que confesso que ele não tem todas as respostas. Leio autores das mais diferentes persuasões teológicas. Às vezes tenho sido mais desafiado e tenho aprendido mais com livros de outras tradições. Não deixo de ouvir alguém somente porque não é calvinista. Há calvinistas que não são assim. Contudo, é uma injustiça acusar a todos de estreiteza, sectarismo, obscurantismo e preconceito.

Deve ter ficado claro que um calvinista, para mim, é basicamente um cristão que tem a coragem de aceitar as coisas que a Bíblia diz sobre a relação entre Deus e o homem e reconhecer que não tem explicações lógicas para elas. Para muitos, esse retrato é de alguém teologicamente fraco e no mínimo confuso. Mas, na verdade, é o retrato de quem deseja calar onde a Bíblia se cala.


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Para concluir o brilhante texto desse aclamado pastor presbiteriano, cito uma frase, ironicamente, de alguém contrário a teologia calvinista, o pastor batista Ed René Kivitz: "Prefiro a vulnerabilidade das muitas perguntas e das poucas respostas à falsa segurança da fantasia. Contra a vulnerabilidade, tenho a fé; contra a fantasia, nada tenho".
Espero que possa ter contribuído para abrir um pouco a mente de quem ainda tem preconceitos com o calvinismo, bem como, e principalmente, daqueles que se acham conhecedores da Bíblia e porque ouviram falar que essa teologia é intelectual, a defendem com intransigência e extremismo, se tornando completamente anti-bíblicos.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Então é Natal...


“O povo que andava em trevas viu uma grande luz, e aos que viviam na região da sombra da morte, resplandeceu-lhes a luz... Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9:2,6)

Vivemos em um mundo conturbado, repleto de valores totalmente opostos aos supostamente pregados e trazidos a tona nessa época do ano, a grande mídia o chama de espírito do natal. O que seria isso?
Ora, Jesus nos foi enviado para, além de nos salvar e ser imolado como o "Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo", nos servir de exemplo de vida! Esse lampejo de lembrança do que foi a vida desse homem que dividiu a história da humanidade, traz nesse período do ano algumas ações sociais imbuídas pelo chamado "espírito natalino". No entanto, como cristãos, somos chamados a muito mais que isso! Somos chamados a viver como Ele viveu, os 365 dias do ano, a sermos pacientes, bondosos, amorosos e, acima de tudo, viver para servir e ajudar o próximo, pois aí é onde reside o sentido da vida! Somos a imagem e semelhança de um Deus que é comunidade e só teremos plenitude quando nos voltarmos à nossa essência relacional, embora os valores desse mundo preguem o individualismo a todo custo, Jesus nos chama ao radicalismo do altruísmo! Esqueçamos o dinheiro, o poder, o status, a espiritualidade barata, a santidade de fachada, e nos voltemos para Ele, que foi tudo menos hipócrita e que viveu para nos mostrar como devemos viver, Ele que deve ser a essência de nossa adoração, o aniversariante do dia: Jesus! Isso é ser evangélico, pois Ele é o Evangelho, isso é ser cristão, pois quem se define assim, deve carregar consigo as qualidades Dele, Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz!



[Abaixo, texto escrito pelo Rev. Augustus Nicodemus e postado no Blog "O Tempora, O Mores"]


O Natal chegou e já me trouxe um problema. Após repassar a lista dos amigos e dos presentes de Natal que pretendo dar a cada um, sobraram quatro conhecidos e uma garrafa de vinho do Porto que eu trouxe de Portugal. Preciso escolher a quem deles vou dar a garrafa e é aqui que o problema começa, pois só poderei dar a garrafa a quem gosta de vinho, celebra o Natal e o faz pelo motivo certo, isto é, a encarnação do Filho de Deus, sua concepção virginal e nascimento – que é o verdadeiro sentido do Natal e a razão da celebração.

O problema é que um deles é liberal. Celebra o Natal como festa cultural, toma vinho, mas, como seu mestre Rudolf Bultmann, não acredita no milagre da concepção virginal de Jesus Cristo no ventre de Maria. Para Bultmann, o nascimento virginal de Jesus faz parte daquela estrutura mitológica da qual o Evangelho vem revestido, e que foi uma estória inventada pelos cristãos helenistas com base em estórias similares de reis e heróis que eram filhos das divindades com virgens (Die Geschichte der Synoptischen Tradition, 1970, p. 291-292). Este meu conhecido é fã do grande liberal americano, Harry Emerson Fosdick, por sua vez discípulo de Bultmann, que num sermão pregado na Primeira Igreja Presbiteriana de Nova York, 1922, afirmou que existe muita gente cristã honesta que “acha que o nascimento virginal não deve ser aceito como fato histórico, mas como uma das maneiras familiares pelas quais o mundo antigo expressava a superioridade incomum de algumas pessoas”. Ou seja, Jesus Cristo realmente não nasceu de uma virgem e seu nascimento foi igual ao dos demais seres humanos. Não vou dar uma garrafa de vinho, especialmente do Porto, a quem realmente não tem o que celebrar no Natal, a não ser o nascimento de um homem como outro qualquer.

O outro conhecido, por sua vez, é pentecostal. Ele crê na concepção miraculosa de Jesus Cristo pelo poder do Espírito Santo, celebra o Natal, mas não toma vinho. Para ele, a Bíblia ensina a total abstinência e considera pecado até um crente beber uma taça de vinho em família. Para mim, o que a Bíblia proíbe é a embriaguês e o escândalo, mas respeito a posição dele. Se eu lhe der a garrafa, vai se sentir provocado.

A coisa se complica ainda mais com o outro conhecido, que é neopuritano. Crê no milagre da concepção de Cristo no ventre de Maria, toma vinho, mas não celebra o Natal. Ele considera o Natal como uma festa apócrifa, de origem pagã e antibíblica; o dia 25 de dezembro era a data da antiga festa pagã da Saturnália e foi transformada pelo Imperador Constantino no Natal. Seria, então, um desperdício dar a ele essa excelente garrafa de vinho do Porto.

Restou o neo-ortodoxo. No caso, este conhecido é da linha de Karl Barth. Ele diz que acredita na concepção miraculosa de Cristo, como o famoso teólogo suíço, e portanto tem motivos para celebrar o Natal. Todavia, eu confesso que nunca entendi direito o que Barth quis dizer ao afirmar acreditar no nascimento virginal. Para ele, este nascimento virginal indica o caráter sobrenatural de Jesus, é um sinal do julgamento de Deus sobre a raça humana, pois a mesma não pode produzir seu próprio Redentor e também um sinal de que Jesus Cristo é um novo começo (Church Dogmatics, I, 2, 196, 181, 177, 188, 191). Mas, ele desconsidera um conseqüência importante do nascimento virginal, que é a impecabilidade de Cristo. Barth afirmava que Cristo assumiu uma natureza pecaminosa, decaída, corruptível, e que portanto, não era perfeito e sem pecado (Church Dogmatics, I, 2, 154). Por causa disto, e porque li em algum lugar que Barth jamais bebericou vinho em sua vida pois preferia cerveja (veja os comentários a este post), é que também não posso dar o Porto ao conhecido que é bartiano.

Só me resta tomar o vinho com minha esposa e brindar aos amigos que lêem nosso blog.

Saúde!

[PS: Eu de fato trouxe de Portugal uma garrafa de vinho do Porto, mas a situação descrita acima é fictícia]

domingo, 6 de dezembro de 2009

Desmistificando o Dízimo



Hoje em dia, a igreja evangélica vem sendo continuamente execrada publicamente, diante de absurdos cometidos pelas igrejas neopentecostais, principalmente no tocante ao dízimo, ou melhor, ao dinheiro em si, e, infelizmente, as igrejas tradicionais tem se calado, ante ao imperativo do ensino bíblico correto acerca da questão, talvez por medo de, uma vez libertos os fiéis dessa maldição(sim, maldição, pois quem se presta a querer cumprir novamente a lei, se põe debaixo de maldição, conforme Paulo expõe aos Gálatas), não terem mais recursos para fazer continuar a obra de Deus. Homens de pouca fé!
O primeiro relato do dízimo na Bíblia, remonta a Abraão, que dizimou como gratidão, parte de despojos de guerra, provavelmente como agradecimento pela graça de ter conseguido libertar seu sobrinho Ló. Note que foi uma atitude de gratidão, voluntária e pontual da parte de Abraão.
O segundo relato, diz respeito a um voto feito por Jacó, que prometeu em Gênesis 28:20-22 "Se Deus for comigo, e me guardar nesta viagem que faço, e me der pão para comer, e vestes para vestir; 21 E eu em paz tornar à casa de meu pai, o SENHOR me será por Deus; 22 E esta pedra que tenho posto por coluna será casa de Deus; e de tudo quanto me deres, certamente te darei o dízimo". Novamente temos uma atitude pontual, através de um voto feito por Jacó, sem imposição nenhuma da parte de Deus.
Esses dois são os únicos exemplos de dízimos encontrados antes da Lei. Depois disso, o dízimo passou a fazer parte da Lei de Moisés e está previsto em Levítico 27:30, em Números 18:21 e em Deuteronômio 14:23 e 14:28. Esses relatos remontam ao pagamento do dízimos aos levitas, para festas e para os pobres. Ora, esses mandamentos estão intrinsecamente ligado ao fato de Israel ser uma teocracia, e o dízimo seria uma espécie de imposto para pagar os trabalhadores governamentais(levitas), financiar as festas do Estado, bem como, promover a assistência social. Se for pra fazer uma aplicação da Bíblia aos nosso dias, você já estaria pagando o dízimo ao Leão todo ano, no seu imposto de renda, e olhe que ele cobra bem mais que 10%!
Afora isso, tem o emblemático texto do profeta Malaquias 3:8-12, amplamente usado nas igrejas, que diz "Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais, e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas. 9 Com maldição sois amaldiçoados, porque a mim me roubais, sim, toda esta nação. 10 Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes. 11 E por causa de vós repreenderei o devorador, e ele não destruirá os frutos da vossa terra; e a vossa vide no campo não será estéril, diz o SENHOR dos Exércitos. 12 E todas as nações vos chamarão bem-aventurados; porque vós sereis uma terra deleitosa, diz o SENHOR dos Exércitos." Todo esse texto é baseado na vigência da lei mosaica, que foi cumprida em Jesus, logo NÃO É ATUAL. Se fosse, a parte das "ofertas" deveria ser cumprida e, nesse caso, Malaquias está se referindo, dentre outras, a ofertas de sacrifícios de animais. Logo, se Malaquias é aplicável a hoje, comecemos a levar galinhas pretas pra nossos pastores sacrificarem nas igrejas! Que tal?
O dízimo não é prática aplicável a igreja nos dias atuais, é prática da lei. A lei se divide em três espécies: política, cerimonial e moral. A lei política era dada ao povo de Deus como cidadãos do Estado de Israel, o que não é nosso caso; a lei cerimonial apontava para Jesus e foi cumprida Nele; a lei moral, subsiste aos nosso dias, desde que confirmada no Novo Testamento. A prática de dizimar não é neotestamentária, hoje em dia vige o conselho de Paulo: "Deus ama quem dar com alegria". Então, se você der 2% do seu salário com alegria, Deus se agradou de sua atitude! Já aquele que dizimou 10% por obrigação, não fez nada aos olhos de Deus. Sem contar os casos de pessoas que mal conseguem viver com seus salários, sendo levadas a ainda tirar 10% dos seu salário mínimo para dar a igreja! Em uma realidade bíblica, essas pessoas receberiam dinheiro dos outros membros, ao invés de darem parte do seu parco salário! Isso é um crime cometido em 99,9% de todas as igrejas evangélicas do país!
Gostaria de concluir dizendo que esse artigo não é um convite ao pão-durismo! Se você congrega em alguma igreja séria, ajude no sustento dela, na medida que você acha razoável para pagar as despesas do local, pois Paulo mesmo afirma que não devemos fechar a boca do boi enquanto ele debulha as sementes, isto é, usufruir de algo que o boi(a igreja) proporciona, sem deixar que ele coma algumas sementes, bem como, não se esqueça que sua religião, segundo Jesus é "ajudar os órfãos e as viúvas nas suas necessidades", logo, ache quem são seus órfãos e suas viúvas, se são meninos de rua, se são presidiários, se são idosos carentes, e os ajude periodicamente! Esse comportamento é muito mais agradável aos olhos de Deus, que a ordenança de dar os mecânicos 10% à uma igreja e achar que está cumprindo com sua obrigação! Isso é patético! Não decaia da graça, não se ponha debaixo de maldição, seja liberto, no nome de Jesus, sacrifício DEFINITIVO E PERFEITO aos olhos de Deus!

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Dons Extraordinários: Mover de Deus ou Espetáculo da Fé?


Continuando o destaque no ensino da doutrina bíblica, gostaria de trazer o foco para um outro ponto: a contemporaneidade dos dons extraordinários. Para ser mais claro, queremos discutir se, ainda hoje, existem pessoas dotadas com um poder especial exclusivo, proveniente da parte de Deus, para revelar/profetizar, curar/realizar milagres ou falar/interpretar línguas estranhas e, afirmando que os mesmos cessaram, expor os motivos pelos quais, mesmo narrados na Bíblia, não estão mais presentes nos tempos hodiernos.
Em primeiro lugar, tratemos do dom de línguas. Bem, o mesmo foi verificado no derramar do Espírito em Pentecostes, quando os discípulos começaram a falar línguas nativas de vários povos! Ora, o dom, conforme podemos interpretar facilmente, serviria para a propagação do Evangelho para todas as nações, bem como para atestar a universalidade dos planos de Deus, logo, tendo um objetivo inicial, finito, isto é, o início da difusão do cristianismo pelo mundo, passado esse momento introdutório, cessa-se o dom. Logo, as línguas ininteligíveis que vemos sendo faladas hoje, não tem respaldo bíblico, nem são línguas de anjos, visto que, quando Paulo cita essa expressão, o mesmo está a falar em uma linguagem nitidamente hiperbólica, bem como, o mesmo afirma falar "muito mais línguas que todos vocês", mas porque quando fala em língua de anjos pontua "ainda que eu FALASSE"? Quer dizer que ele mesmo não falava? E logo, os que hoje dizem falar, segundo sua doutrina, seriam "mais espirituais" que o próprio apóstolo? Ademais, quando vemos narrado a comunicação com anjos na Bíblia, temos uma comunicação em linguagem humana.
O segundo passo refere-se aos dons de conhecimento e profecia. Hoje, Deus nos fala através de Sua Palavra, a Bíblia, que já está posta e perfeitamente acabada, logo, não há mais necessidade de revelar-se de outra maneira, pois revelou-se de maneira máxima em Jesus, que por sua vez é revelado através das Escrituras; antigamente havia a necessidade de revelar-se, pois Cristo não havia estado ainda entre nós, bem como, posteriormente, a Bíblia não havia sido finalizada, com o Apocalipse. É o que nos demonstra facilmente Hebreus 1:1: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho...”. Ademais, a palavra "profecia" em grego, quer dizer literalmente, "aquele que fala segundo a palavra de Deus", logo, se a palavra de Deus hoje, como sabemos, é a Bíblia, aquele que a explica, sem desvios, é que será o genuíno profeta, caso queiramos insistir em aplicar o termo atualmente.
Por fim, tratemos dos mais extraordinários dons, os de operação de milagres e cura. Bem, pela sua peculiaridade e grandeza, esses dons eram derramados apenas para confirmação da pregação inicial do Evangelho, bem como, em outras partes da história do povo de Deus, para confirmar a veracidade do testemunho de algum líder que teria um papel crucial e determinante, em algum novo mover histórico de Deus, como aconteceu com os prodígios de Moisés, visto que, o mesmo iria escrever os primeiros livros das Escrituras, bem como, conduzir toda uma nação, necessitando de um atestado visível que Deus verdadeiramente o outorgara todas essas funções, algo que não ocorre mais atualmente, visto que vivenciamos o fim dos tempos e tudo nos já foi devidamente revelado, através da Bíblia. "Esses sinais especiais atestavam a pregação da nova mensagem e removiam qualquer pretexto de dúvida ou incredulidade de quem estava ouvindo. Foi exatamente o que aconteceu com João Batista quando encarcerado e em momento de dúvida e angústia, foi confortado por Jesus quando mandou lhe dizer: "... Ide, e anunciai a João as coisas que ouvis e vedes: os cegos vêem, e os coxos andam; os leprosos são limpos, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o evangelho." (Mt. 11: 4-5). Por isso, Paulo foi capaz de afirmar: "Porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo..." (1 Ts. 1:5). Esse poder foi manifestado freqüentemente através dos apóstolos quando muitos eram curados de suas enfermidades, ressuscitados e libertos da opressão e possessão demoníaca. O evangelho, as boas novas, era algo novo, uma mensagem nova para aquele povo que não reconheceram o Seu Messias; ainda não tinha o Novo Testamento sido escrito. A confiança dava-se na palavra falada dos apóstolos (a mensagem proclamada), e por isso aprouve a Deus confirmar a pregação de seu evangelho através de sinais e maravilhas. Em Atos 5:12 lemos que "muitos sinais e prodígios eram feitos entre o povo pelas mãos dos apóstolos" e quando questionado sobre sua autoridade apostólica, Paulo responde que "os sinais de meu apostolado foram manifestados entre vós com toda a paciência, por sinais, prodígios e maravilhas." (2 Co. 12:12). Portanto, no meio deles, da igreja e do povo em geral, Deus estava confirmando o ministério dos apóstolos, validando suas pregações e ensinamentos através dos sinais, dos milagres, curas e expulsão de demônios. Podemos, então, concluir claramente que Deus destinou esses dons aos apóstolos e poucas outras pessoas no início da igreja".
Concluo dizendo o seguinte: esses dons cessaram SIM, no entanto, isso não quer dizer que Deus, segundo Sua SOBERANIA, não possa usar alguém(ou mesmo um jumento) para trazer uma palavra(extremamente pontual) a outrem, no entanto, isso não irá fazer da pessoa um profeta; da mesma forma que Deus pode usar alguém para orar e, através dela, derramar cura sobre alguma pessoa, por outro lado, da mesma forma, isso não fará daquela pessoa uma "curandeira". Isso não existe! E lembrem-se, nos últimos tempos Satanás se travestirá de anjo de luz para, se possível, enganar até os eleitos, portanto, apeguem-se a ela, única e última fonte de revelação e poder para os últimos tempos: A Palavra de Deus, A Bíblia, e rejeitem toda forma estranha à sã doutrina e que não tem respaldo, nem bíblico-teológico, nem na história da igreja. Como já dizia Calvino: "A Bíblia é o árbitro do Espírito".

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Sã Doutrina: Que Bicho é Esse?


Já que venho abordando nas últimas postagens muito o tema da necessidade do discipulado e do ensino da sã doutrina no corpo de Cristo, vi-me instado a trazer, de maneira superficial e sintética(visto que estou longe de ser um grande teólogo), alguns pontos cruciais da doutrina bíblica, focando basicamente em três liames históricos: o princípio de tudo, na existência da pessoa de um Deus onipotente, onipresente e onisciente; a criação do homem e sua queda; e, por fim, a salvação do homem.

1. O Princípio de Tudo: A Pessoa de Deus
Em primeiro lugar, convém-nos falar um pouco sobre o ser de Deus, basicamente tratar da questão de seus atributos e de sua natureza. Bem, Deus é um ser perfeito, logo, para entender bem isso, precisamos pontuar desde já que todas as qualidades presentes Nele são expressadas de mandeira integral, ou seja, Deus não é hora misericordioso, ora justo; Ele exerce misericórdia aplicando a justiça, ao passo que aplica a justiça sendo misericordioso.
Ademais, no ser de Deus, há três pessoas, não três indivíduos, há três pessoas, as quais possuem a mesma essência divina, do contrário, estariamos sendo triteístas. Essas pessoas coexistem e se relacionam desde a eternidade, fato que nos faz seres basilarmente relacionais, visto que somos imagem e semelhança de um Deus comunitário, no entanto, a manifestação de uma pessoa não anula a da outra, como disse, as pessoas coexistem, caso contrário, estaríamos tendendo ao modalismo.

2. A Criação do Homem, o Livre-Arbítrio e a Queda
À imagem e semelhança desse Deus que é comunidade, foi criado o homem, como um ser obviamente relacional. Na ocasião da criação, Deus concedeu ao homem, no caso, a Adão, o livre-arbítrio, isto é, a capacidade de pecar ou não pecar, de obedecer ou de desobedecer a Deus. Quando Adão escolheu pecar, ali perdeu-se o livre-arbítrio, basicamente, o homem perdeu a capacidade de não pecar, sendo suas escolhas, a partir daí, determinadas pelo estado de queda, de afastamento de Deus, de desobediência. Note que livre-arbítrio é diferente de livre agência ou capacidade de escolha, que é algo inerente ao ser humano até os dias atuais e diz respeito ao fato do homem ser capaz de fazer escolhas de acordo com o que lhe é agradável, de agir conforme sua racionalidade(o homem nunca é forçado a fazer algo que não deseja, faz sempre aquilo que lhe traz prazer).

3. A Salvação do Homem
Em razão da perda da capacidade de escolher agradar a Deus, advinda da queda, o homem, agora escravo do pecado, não pode, por si só, voltar-se para Deus novamente, sendo necessário então, para sua ulterior salvação, que o próprio Deus o busque e mude seu estado. Sendo assim, Deus em sua livre graça, resolve salvar o homem, agindo em seu coração, pela ação do Espírito Santo, que o concede habilidade para escolher o que é correto. Nesse estado, o homem ainda está enfrentando sua natureza caída, logo, não possui restabelecida a capacidade de não pecar, no entanto, recebe qualificação para poder optar pelo que é bom, basicamente, sendo atraído a Jesus Cristo, caminho de sua salvação e manifestação da graça de Deus, é o que se chama de vocação eficaz. Logo, a salvação é um processo que parte de Deus para o homem, nunca do homem para Deus.

Espero que esses singelos ensinamentos tenham sido úteis, ansiando que eles sejam lidos com a Bíblia ao lado, conforme um bom bereiano.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Conversão ou Adesão?


Antes de partir diretamente para o tema desse artigo, gostaria de tecer algumas ilações sobre a denominada "Marcha para Jesus". Na minha opinião, um evento completamente danoso à imagem do Reino de Deus na Terra, onde a massa evangélica se solta, em sua micareta gospel, repleta de algazarra e politicagem, em um ato supostamente de louvor a Jesus. Quem pôde acompanhar algum ano, ou até mesmo viu através de imagens, consegue encaixar aquilo como culto ao Senhor? Cada leitor fique com suas próprias conclusões, a minha é totalmente contrária a realização desse evento escandaloso, onde mais uma vez os crentes criam suas "corbãs", fugindo do que eles acham ser o "mundo", e trazendo esse mesmo "mundo" para o culto a Deus, achando que estão o purificando, apenas porque ele carrega o título de "gospel". Quanta inversão de valores!
Voltando ao assunto, se pararmos para pensar um pouco, os grandes problemas de preconceito, confusão e exclusão vivenciados no Corpo de Cristo residem no fato de que ele está abarrotado de adesistas, e não de convertidos.
Vejamos, certo dia pude participar de uma acalourada discussão com uma dessas pessoas, ao passo que ela balbuciava "Você acha que eu queria está aqui sentado nessa mesa? Eu queria era estar no mundo! O mundo é bom demais... Mas tenho que me esforçar pra me santificar". Fiquei estarrecido! As coisas hoje funcionam assim: o sujeito farra, pratica toda sorte de mundanismo, transa com todas, cheira todas, aí em determinado momento, vendo-se exausto com todo aquele estilo de vida, procura outro, mais pacato e adequado a sua idade não mais tão jovem, com um grupo social onde possa conquistar novas amizades e não ficar só... Diante disso, surge uma idéia brilhante na cabeça do cidadão: "Vou virar crente!". E então, o cara vai lá, levanta a mão no culto, e assina o termo de adesão ao "crenticismo"(claro, porque de cristianismo a religião dele não terá nada).
A partir de então, tudo que for feito pela igreja, por crentes, é perfeito, é de Deus, ele está presente; tudo que estiver fora do rótulo "gospel", é do mundo, e, como ele não faz parte mais desse mundo, e condicionou-se a negá-lo veementemente(provavelmente no espelho de casa), deve fugir dele e condenar todo aquele que estiver no "mundo", principalmente se o cara for um "irmão", pois deve ser disciplinado(ou você acha que alguém que passou a vida todinha sendo aconselhado, disciplinado e doido pra disciplinar alguém vai perder essa grande oportunidade?)!
Equanto isso, o convertido está lá, renovado pelo Espírito Santo, transformado de dentro pra fora, e não de fora pra dentro, entendendo que "tudo é puro para os puros", enxergando o agir de Deus em todas as horas, através de tudo, sem limitar esse agir, sem rotular nada de "secular" e "gospel", visto que, ele sabe que tudo é divino para os realmente transformados pelo poder do Espírito. Esse é o pensamento correto que se deve ter na igreja, mas não é o que ocorre, principalmente em razão da influência das adesões...
Tomo emprestadas às palavras do reverendo presbiteriano Solano Portela: "Verificamos que criamos, na igreja, uma dissociação artificial entre o sagrado e o profano. Falhamos em reconhecer que todas as coisas provêm de Deus. Estamos em uma criação caída, sob o pecado, mas cabe a nós, servos fiéis, exercermos o domínio que nos foi outorgado por Deus, para a sua glória. Isso quer dizer procurarmos adquirir o melhor conhecimento e desenvolver a apreciação pelas coisas belas da criação e aquelas que Deus permitiu às pessoas desenvolverem. Ao mesmo tempo, devemos ter discernimento cristão para rejeitar as distorções malignas da cultura verdadeira."
No entanto, quem tem essa consciência é a todo momento criticado pelo cara que usa aquela maquiagem de crente e é como um sepulcro caiado, doido para se render de novo ao mundanismo, que o prende por dentro, mas jogando cal a toda hora no sepulcro, como "esforço de santificação", o adesista.
E é na Marcha pra Jesus que ele se solta, afinal de contas, ali pode, né? É pra Jesus! E você, aderiu ao "crenticismo" ou experimentou uma genuína conversão ao cristianismo, através da ação e do convencimento do Espírito Santo?