terça-feira, 24 de novembro de 2009

Dons Extraordinários: Mover de Deus ou Espetáculo da Fé?


Continuando o destaque no ensino da doutrina bíblica, gostaria de trazer o foco para um outro ponto: a contemporaneidade dos dons extraordinários. Para ser mais claro, queremos discutir se, ainda hoje, existem pessoas dotadas com um poder especial exclusivo, proveniente da parte de Deus, para revelar/profetizar, curar/realizar milagres ou falar/interpretar línguas estranhas e, afirmando que os mesmos cessaram, expor os motivos pelos quais, mesmo narrados na Bíblia, não estão mais presentes nos tempos hodiernos.
Em primeiro lugar, tratemos do dom de línguas. Bem, o mesmo foi verificado no derramar do Espírito em Pentecostes, quando os discípulos começaram a falar línguas nativas de vários povos! Ora, o dom, conforme podemos interpretar facilmente, serviria para a propagação do Evangelho para todas as nações, bem como para atestar a universalidade dos planos de Deus, logo, tendo um objetivo inicial, finito, isto é, o início da difusão do cristianismo pelo mundo, passado esse momento introdutório, cessa-se o dom. Logo, as línguas ininteligíveis que vemos sendo faladas hoje, não tem respaldo bíblico, nem são línguas de anjos, visto que, quando Paulo cita essa expressão, o mesmo está a falar em uma linguagem nitidamente hiperbólica, bem como, o mesmo afirma falar "muito mais línguas que todos vocês", mas porque quando fala em língua de anjos pontua "ainda que eu FALASSE"? Quer dizer que ele mesmo não falava? E logo, os que hoje dizem falar, segundo sua doutrina, seriam "mais espirituais" que o próprio apóstolo? Ademais, quando vemos narrado a comunicação com anjos na Bíblia, temos uma comunicação em linguagem humana.
O segundo passo refere-se aos dons de conhecimento e profecia. Hoje, Deus nos fala através de Sua Palavra, a Bíblia, que já está posta e perfeitamente acabada, logo, não há mais necessidade de revelar-se de outra maneira, pois revelou-se de maneira máxima em Jesus, que por sua vez é revelado através das Escrituras; antigamente havia a necessidade de revelar-se, pois Cristo não havia estado ainda entre nós, bem como, posteriormente, a Bíblia não havia sido finalizada, com o Apocalipse. É o que nos demonstra facilmente Hebreus 1:1: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho...”. Ademais, a palavra "profecia" em grego, quer dizer literalmente, "aquele que fala segundo a palavra de Deus", logo, se a palavra de Deus hoje, como sabemos, é a Bíblia, aquele que a explica, sem desvios, é que será o genuíno profeta, caso queiramos insistir em aplicar o termo atualmente.
Por fim, tratemos dos mais extraordinários dons, os de operação de milagres e cura. Bem, pela sua peculiaridade e grandeza, esses dons eram derramados apenas para confirmação da pregação inicial do Evangelho, bem como, em outras partes da história do povo de Deus, para confirmar a veracidade do testemunho de algum líder que teria um papel crucial e determinante, em algum novo mover histórico de Deus, como aconteceu com os prodígios de Moisés, visto que, o mesmo iria escrever os primeiros livros das Escrituras, bem como, conduzir toda uma nação, necessitando de um atestado visível que Deus verdadeiramente o outorgara todas essas funções, algo que não ocorre mais atualmente, visto que vivenciamos o fim dos tempos e tudo nos já foi devidamente revelado, através da Bíblia. "Esses sinais especiais atestavam a pregação da nova mensagem e removiam qualquer pretexto de dúvida ou incredulidade de quem estava ouvindo. Foi exatamente o que aconteceu com João Batista quando encarcerado e em momento de dúvida e angústia, foi confortado por Jesus quando mandou lhe dizer: "... Ide, e anunciai a João as coisas que ouvis e vedes: os cegos vêem, e os coxos andam; os leprosos são limpos, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o evangelho." (Mt. 11: 4-5). Por isso, Paulo foi capaz de afirmar: "Porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo..." (1 Ts. 1:5). Esse poder foi manifestado freqüentemente através dos apóstolos quando muitos eram curados de suas enfermidades, ressuscitados e libertos da opressão e possessão demoníaca. O evangelho, as boas novas, era algo novo, uma mensagem nova para aquele povo que não reconheceram o Seu Messias; ainda não tinha o Novo Testamento sido escrito. A confiança dava-se na palavra falada dos apóstolos (a mensagem proclamada), e por isso aprouve a Deus confirmar a pregação de seu evangelho através de sinais e maravilhas. Em Atos 5:12 lemos que "muitos sinais e prodígios eram feitos entre o povo pelas mãos dos apóstolos" e quando questionado sobre sua autoridade apostólica, Paulo responde que "os sinais de meu apostolado foram manifestados entre vós com toda a paciência, por sinais, prodígios e maravilhas." (2 Co. 12:12). Portanto, no meio deles, da igreja e do povo em geral, Deus estava confirmando o ministério dos apóstolos, validando suas pregações e ensinamentos através dos sinais, dos milagres, curas e expulsão de demônios. Podemos, então, concluir claramente que Deus destinou esses dons aos apóstolos e poucas outras pessoas no início da igreja".
Concluo dizendo o seguinte: esses dons cessaram SIM, no entanto, isso não quer dizer que Deus, segundo Sua SOBERANIA, não possa usar alguém(ou mesmo um jumento) para trazer uma palavra(extremamente pontual) a outrem, no entanto, isso não irá fazer da pessoa um profeta; da mesma forma que Deus pode usar alguém para orar e, através dela, derramar cura sobre alguma pessoa, por outro lado, da mesma forma, isso não fará daquela pessoa uma "curandeira". Isso não existe! E lembrem-se, nos últimos tempos Satanás se travestirá de anjo de luz para, se possível, enganar até os eleitos, portanto, apeguem-se a ela, única e última fonte de revelação e poder para os últimos tempos: A Palavra de Deus, A Bíblia, e rejeitem toda forma estranha à sã doutrina e que não tem respaldo, nem bíblico-teológico, nem na história da igreja. Como já dizia Calvino: "A Bíblia é o árbitro do Espírito".

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Sã Doutrina: Que Bicho é Esse?


Já que venho abordando nas últimas postagens muito o tema da necessidade do discipulado e do ensino da sã doutrina no corpo de Cristo, vi-me instado a trazer, de maneira superficial e sintética(visto que estou longe de ser um grande teólogo), alguns pontos cruciais da doutrina bíblica, focando basicamente em três liames históricos: o princípio de tudo, na existência da pessoa de um Deus onipotente, onipresente e onisciente; a criação do homem e sua queda; e, por fim, a salvação do homem.

1. O Princípio de Tudo: A Pessoa de Deus
Em primeiro lugar, convém-nos falar um pouco sobre o ser de Deus, basicamente tratar da questão de seus atributos e de sua natureza. Bem, Deus é um ser perfeito, logo, para entender bem isso, precisamos pontuar desde já que todas as qualidades presentes Nele são expressadas de mandeira integral, ou seja, Deus não é hora misericordioso, ora justo; Ele exerce misericórdia aplicando a justiça, ao passo que aplica a justiça sendo misericordioso.
Ademais, no ser de Deus, há três pessoas, não três indivíduos, há três pessoas, as quais possuem a mesma essência divina, do contrário, estariamos sendo triteístas. Essas pessoas coexistem e se relacionam desde a eternidade, fato que nos faz seres basilarmente relacionais, visto que somos imagem e semelhança de um Deus comunitário, no entanto, a manifestação de uma pessoa não anula a da outra, como disse, as pessoas coexistem, caso contrário, estaríamos tendendo ao modalismo.

2. A Criação do Homem, o Livre-Arbítrio e a Queda
À imagem e semelhança desse Deus que é comunidade, foi criado o homem, como um ser obviamente relacional. Na ocasião da criação, Deus concedeu ao homem, no caso, a Adão, o livre-arbítrio, isto é, a capacidade de pecar ou não pecar, de obedecer ou de desobedecer a Deus. Quando Adão escolheu pecar, ali perdeu-se o livre-arbítrio, basicamente, o homem perdeu a capacidade de não pecar, sendo suas escolhas, a partir daí, determinadas pelo estado de queda, de afastamento de Deus, de desobediência. Note que livre-arbítrio é diferente de livre agência ou capacidade de escolha, que é algo inerente ao ser humano até os dias atuais e diz respeito ao fato do homem ser capaz de fazer escolhas de acordo com o que lhe é agradável, de agir conforme sua racionalidade(o homem nunca é forçado a fazer algo que não deseja, faz sempre aquilo que lhe traz prazer).

3. A Salvação do Homem
Em razão da perda da capacidade de escolher agradar a Deus, advinda da queda, o homem, agora escravo do pecado, não pode, por si só, voltar-se para Deus novamente, sendo necessário então, para sua ulterior salvação, que o próprio Deus o busque e mude seu estado. Sendo assim, Deus em sua livre graça, resolve salvar o homem, agindo em seu coração, pela ação do Espírito Santo, que o concede habilidade para escolher o que é correto. Nesse estado, o homem ainda está enfrentando sua natureza caída, logo, não possui restabelecida a capacidade de não pecar, no entanto, recebe qualificação para poder optar pelo que é bom, basicamente, sendo atraído a Jesus Cristo, caminho de sua salvação e manifestação da graça de Deus, é o que se chama de vocação eficaz. Logo, a salvação é um processo que parte de Deus para o homem, nunca do homem para Deus.

Espero que esses singelos ensinamentos tenham sido úteis, ansiando que eles sejam lidos com a Bíblia ao lado, conforme um bom bereiano.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Conversão ou Adesão?


Antes de partir diretamente para o tema desse artigo, gostaria de tecer algumas ilações sobre a denominada "Marcha para Jesus". Na minha opinião, um evento completamente danoso à imagem do Reino de Deus na Terra, onde a massa evangélica se solta, em sua micareta gospel, repleta de algazarra e politicagem, em um ato supostamente de louvor a Jesus. Quem pôde acompanhar algum ano, ou até mesmo viu através de imagens, consegue encaixar aquilo como culto ao Senhor? Cada leitor fique com suas próprias conclusões, a minha é totalmente contrária a realização desse evento escandaloso, onde mais uma vez os crentes criam suas "corbãs", fugindo do que eles acham ser o "mundo", e trazendo esse mesmo "mundo" para o culto a Deus, achando que estão o purificando, apenas porque ele carrega o título de "gospel". Quanta inversão de valores!
Voltando ao assunto, se pararmos para pensar um pouco, os grandes problemas de preconceito, confusão e exclusão vivenciados no Corpo de Cristo residem no fato de que ele está abarrotado de adesistas, e não de convertidos.
Vejamos, certo dia pude participar de uma acalourada discussão com uma dessas pessoas, ao passo que ela balbuciava "Você acha que eu queria está aqui sentado nessa mesa? Eu queria era estar no mundo! O mundo é bom demais... Mas tenho que me esforçar pra me santificar". Fiquei estarrecido! As coisas hoje funcionam assim: o sujeito farra, pratica toda sorte de mundanismo, transa com todas, cheira todas, aí em determinado momento, vendo-se exausto com todo aquele estilo de vida, procura outro, mais pacato e adequado a sua idade não mais tão jovem, com um grupo social onde possa conquistar novas amizades e não ficar só... Diante disso, surge uma idéia brilhante na cabeça do cidadão: "Vou virar crente!". E então, o cara vai lá, levanta a mão no culto, e assina o termo de adesão ao "crenticismo"(claro, porque de cristianismo a religião dele não terá nada).
A partir de então, tudo que for feito pela igreja, por crentes, é perfeito, é de Deus, ele está presente; tudo que estiver fora do rótulo "gospel", é do mundo, e, como ele não faz parte mais desse mundo, e condicionou-se a negá-lo veementemente(provavelmente no espelho de casa), deve fugir dele e condenar todo aquele que estiver no "mundo", principalmente se o cara for um "irmão", pois deve ser disciplinado(ou você acha que alguém que passou a vida todinha sendo aconselhado, disciplinado e doido pra disciplinar alguém vai perder essa grande oportunidade?)!
Equanto isso, o convertido está lá, renovado pelo Espírito Santo, transformado de dentro pra fora, e não de fora pra dentro, entendendo que "tudo é puro para os puros", enxergando o agir de Deus em todas as horas, através de tudo, sem limitar esse agir, sem rotular nada de "secular" e "gospel", visto que, ele sabe que tudo é divino para os realmente transformados pelo poder do Espírito. Esse é o pensamento correto que se deve ter na igreja, mas não é o que ocorre, principalmente em razão da influência das adesões...
Tomo emprestadas às palavras do reverendo presbiteriano Solano Portela: "Verificamos que criamos, na igreja, uma dissociação artificial entre o sagrado e o profano. Falhamos em reconhecer que todas as coisas provêm de Deus. Estamos em uma criação caída, sob o pecado, mas cabe a nós, servos fiéis, exercermos o domínio que nos foi outorgado por Deus, para a sua glória. Isso quer dizer procurarmos adquirir o melhor conhecimento e desenvolver a apreciação pelas coisas belas da criação e aquelas que Deus permitiu às pessoas desenvolverem. Ao mesmo tempo, devemos ter discernimento cristão para rejeitar as distorções malignas da cultura verdadeira."
No entanto, quem tem essa consciência é a todo momento criticado pelo cara que usa aquela maquiagem de crente e é como um sepulcro caiado, doido para se render de novo ao mundanismo, que o prende por dentro, mas jogando cal a toda hora no sepulcro, como "esforço de santificação", o adesista.
E é na Marcha pra Jesus que ele se solta, afinal de contas, ali pode, né? É pra Jesus! E você, aderiu ao "crenticismo" ou experimentou uma genuína conversão ao cristianismo, através da ação e do convencimento do Espírito Santo?

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Gestão Empresarial das Igrejas: Benção ou Maldição?


Presbíteros e diáconos viraram diretores; pastores titulares viraram verdadeiros CEO's(sigla da expressão inglesa Chief Executive Officer que designa o mais alto cargo executivo de uma organização) e as igrejas brasileiras históricas cada vez mais estão se rendendo a mais um modelo importado, ao lado da euforia do G-12(que, no entanto, e graças a Deus, não tem infestado muitas instituições sérias). Trata-se da administração empresarial das organizações religiosas, a qual utiliza das mais variadas técnicas de administração e marketing, trazidas das grandes corporações diretamente para dentro das igrejas. A novidade, também chamada de "igreja ao gosto do freguês" ou "igreja do novo paradigma" ou ainda, em inglês, "seeker sensitive", é capitaneada, dentre outros, pelos fenômenos estadunidenses Bill Hybels e Rick Warren, das famosas Willow Creek Church e Saddleback Church, os quais contam como principais pupilos no Brasil, respectivamente, Armando Bispo e Carlito Paes. A princípio parece uma grande sacada, mas o que há por dentro e por fora desse estilo que hostenta uma faceta de vanguardismo e brilhantismo?
Por um lado temos uma igreja pujante, cheia de pessoas instadas ao "voluntariado" e à "liderança", conceito amplamente difundido pelo movimento, fato que gera uma comunidade em contínuo crescimento e, portanto, tornando-se viva em todos os segmentos e fortemente inserida no contexto social da região em que está situada. Maravilha!
No entanto, cresce e reúne pessoas advindas de todas as raízes religiosas... aí é onde reside o grande problema! A fixação por "liderança", "voluntariado" e "crescimento", além de provocar uma recorrente, tensa e demoníaca briga por poder(assim como nas empresas), deixa em segundo plano o emblemático mandamento de Jesus para sua igreja: "ide e fazei DISCÍPULOS", isso em uma comunidade que cresce para todos os lados, gera uma massa de pessoas totalmente carentes de um discipulado efetivo, tornando a igreja uma verdadeira Babel! Pastores-CEO's passam a dar mais importância a reuniões e planejamentos, que ao valoroso ofício pastoral propriamente dito, que inclui não só presença no "show dominical", mas também ensino bíblico, aconselhamento, presença na vida dos membros...
Apesar de manterem, a partir de seus líderes e de suas confissões de fé, a sã doutrina, essas igrejas vêem-se reféns de heresias que circulam por todos os lados, visto que seus membros não são doutrinados de forma eficiente, logo, causando sérios riscos à manutenção do entendimento correto do Evangelho no corpo como um todo, sendo, com o passar do tempo, minoria os que seguem a sã doutrina. Logo, esse modelo precisa urgentemente ser repensado e adaptado, sendo preciso até, abdicar de algumas de suas supostas conquistas, em prol de um bem maior, quiçá único: o correto entendimento acerca da Palavra de Deus. Ora, o próprio Hybels, vislumbrando o problema escreveu "Quando a liderança e o discipulado entram em conflito", veja bem, Dr Hybels, quando algo entra em conflito com um mandamento de Jesus("ide e fazei DISCÍPULOS), deve ser excluído e não idolatrado!
Ao passo que concluo esse artigo, o som de J Neto cantando um clássico da atualmente esquecida Harpa Cristã, "A Mensagem da Cruz", me faz indagar: será que não estamos querendo enfeitar demais um bolo que já é delicioso por si mesmo (ela, a mensagem da cruz)? Temos que ter cuidado para os muitos confeitos não deixá-lo doce demais e, portanto, enjoativo! Sem nos esquecer, também, dos graves riscos da abundância de fermento! Pensemos nisso e quem sabe David Quinlan possa nos ajudar a cantarmos juntos com os irmãos totalmente convictos desse "novo paradigma": "Estou voltando à essência da adoração, e a essência és Tu, a essência és Tu Jesus"... Termino esperando, orando e ansiando por uma igreja que inove, mas não abra mão das conquistas doutrinárias advindas da Reforma, que nada mais foi que um verdadeiro retorno à essência do cristianismo! Não precisamos de solo marketing ou solus lideris, nos basta sola scriptura, sola gratia, sola fide, solus Christus, soli Deo gloria! Deus queira que os líderes dessa nova onda continuem centrados na Palavra e busquem impor a sã doutrina, a partir do tradicional prestígio que alcançam perante seu público, para que não façam de suas igrejas, igrejas como a de Sardes, conforme nos mostra o livro de Apocalipse: "Isto diz o que tem os sete espíritos de Deus, e as sete estrelas: Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives, e estás morto".

sábado, 7 de novembro de 2009

A Evolução do Pensamento Fariseu: Do Legalismo aos Escândalos



Hoje em dia, praticar legalismos e ascetismos abertamente não é mais tão bem aceito, principalmente depois que a “massa de manobra” evangélica, um tanto acéfala, começou a criar consciência e atender ao chamado de Davi, em seu Salmo 32: “Não sejais como o cavalo, nem como a mula, que não têm entendimento, cuja boca precisa de cabresto e freio...”. Assistimos televisão, temos bateria nos altares e, pasmem, as mulheres usam calça! Bricadeiras a parte, voltemos ao texto...
Para situar o leitor, vou recorrer ao Dr. Hernandes Dias Lopes, pastor presbiteriano, para definir o que seja legalismo e ascetismo. Segundo ele, o primeiro é algo “mascarado de profunda espiritualidade, é uma negação da verdadeira fé cristã. Ele põe sua atenção em formas, ritos e cerimônias em vez de focar-se na Pessoa e obra de Cristo. Ele está mais preocupado com a aparência, do que com a essência. Dá mais atenção ao método que ao conteúdo”, trocando em miúdos e em uma alusão à última postagem, é aquele cara que não vai pra boate nem pro barzinho, porque é pecado, mas está completamente entregue ao “curso deste mundo”, mesmo sem arredar o pé da igreja; na perfeita definição de Jesus, um “sepulcro caiado”. Já o segundo, é definido como “a privação de coisas legítimas com o fim de agradar a Deus. O ascetismo pensa que a santidade tem a ver com o nosso esforço de privar-nos das coisas que Deus criou. Na busca dessa espiritualidade auto-construída muitos se flagelam; outros castigam seu corpo com escassez de pão e ainda outros fogem para mosteiros. O cerne do ascetismo constitui-se em: ‘Não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquilo outro’ (Cl 2.21). O apóstolo Paulo diz que esse rigor ascético é preceito e doutrina de homens, é culto de si mesmo e falsa humildade e não tem valor algum contra os impulsos da carne (Cl 2.22,23)”, ou seja, esse cara já entendeu que não é pecado ir a boate ou o barzinho, mas mesmo assim, e apesar de gostar de sentar em uma mesa de bar com amigos, ao som de uma boa música, em um sábado a noite, continua se negando a ir e o faz acreditando piamente que é um esforço de santificação, o tornando muitas vezes um orgulhoso, decaindo da graça e voltando para as obras. Ele repete sempre, mas de maneira exegeticamente inaplicável: “é lícito, mas não me convém”. Nesse verso de 1 Coríntios, conforme se extrai do Novo Comentário da Bíblia, “Paulo mostra [apenas] que o princípio de liberdade, apresentado no vers. 12, não se aplica a coisas definidamente ruins em si mesmas”, como por exemplo, usar drogas, fato que pode ser ratificado pelo trecho “não se deixar dominar por elas”, não sendo, portanto, um convite ao ascetismo, pois se assim fosse, o apóstolo estaria se contradizendo.
Sim, mas o que é que isso tudo tem haver com escândalo? Bem, essa é a evolução do pensamento fariseu, buscando argumentos melhores para continuar impondo os “cabrestos e freios”. Primeiro ele dizia que é pecado (legalista), aí chove contra ele todo o ensino anti-legalista de Jesus e de Paulo, depois que não convém (ascético), aí um leitor mais cuidadoso apresenta a Carta de Paulo aos Colossenses e, por fim, ele diz “causa escândalo” e atinge o objetivo de deixar você cheio de culpa e remorso, algo tipicamente demoníaco. Mas o que a Bíblia nos ensina sobre o escândalo?
Bem, basicamente ela nos ensina a não escandalizar (no sentido tratado no texto, isto é, praticando coisas “lícitas”) um grupo, Jesus fala “os pequeninos”; Paulo fala “os fracos na fé”. Agora eu pergunto, essas atitudes que nos convencem de que causa escândalo, tem causado escândalo a quem? Aos “pequeninos” ou aos “manipuladores”? Ora, irmãos, mutatis mutandi, Jesus foi mestre em escandalizar da forma correta, ele estava sempre presente na festa dos ditos pecadores, comendo e bebendo com eles, ao ponto de ser chamado “glutão” e “beberrão” por aqueles que se escandalizavam com ele e querem convencer você de que se fores iguais a Ele, vais escandalizar. Mas escandalizar quem? Os fracos? Os pequeninos? NÃO! O que se vê na prática é o escândalo apenas entre os mestres da lei, do ensino legalista, ascético, mascarado sob o argumento “vai escandalizar”; com relação a eles, causar escândalo é assemelhar-nos a Cristo, portanto, primeiro verifique quem está se escandalizando e depois atenda a Paulo, seja imitador de Jesus!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Mundo: Amar ou não Amar? Eis a Questão!


“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” João 3:16

“Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele” 1 João 2:15


Um ateu leria e diria: eu não disse? Cadê essa história de texto inspirado? O cara diz que Deus amou o mundo, depois diz que não é pra você amar, cadê a lógica disso? Bem, procuraremos responder não só a esse questionamento, mas entrar em uma polêmica vivida em qualquer meio evangélico atual, o qual prefere esquecer do amor de Deus pelo mundo, pregando um Deus inquisidor, ao mesmo tempo que sai recitando o segundo versículo, como um mantra farisaico.
Ora, obviamente, o apóstolo João quando repete a mesma palavra, no evangelho e na epístola, não está falando de mundo no mesmo sentido. O mundo que Deus amou e ainda ama é o mundo formado de gente, de carne e osso, de pecadores carentes de seu amor e da graça imerecida, porém já DEFINITIVAMENTE conquistada por Jesus na cruz. Esse é o mundo que Deus ama e nos convida a amar também, apesar de, corriqueiramente, e ainda invocando o Salmo 1(de uma forma exegeticamente esdrúxula), buscarmos nos afastar do que intitulamos “mundo de ímpios”, “roda de escarnecedores”, quando, na verdade, agindo dessa maneira, nós que estamos sendo os “ímpios”, que nada mais é que “pessoas sem piedade”, bem como os próprios escarnecedores que, para Jesus, eram os que sentavam nas rodinhas legalistas dos templos judeus.
Mas então, que mundo devemos odiar? A resposta está em Paulo, ele explica com a seguinte expressão “curso deste mundo”, isto é, os valores presentes no mundo, não o mundo em si. Estamos a tratar do aspecto espiritual e não da materialidade, ou seja, a própria construção de Deus. Eu posso estar em uma boate, ou seja, no mundo, dançando, me divertindo, sem estar entregue ao “curso deste mundo”, a saber, sem os valores de “tem que beber até cair”, “tem que pegar todas quantas puder”, “tem que arrumar uma pra ir pro motel depois”, e ainda, ali mesmo, praticar o amor ao mundo que Deus ama, por exemplo, oferecer carona a meu amigo embriagado, para que ele não cometa um acidente etc. Veja bem, Deus deu um tratado cultural ao homem para "transformar" sua criação, gerando maravilhas como o cinema, a música (e os shows!), o teatro etc., quando fugimos dessas coisas, estamos indo contra Jesus, que pede que não estejamos fora do mundo, mas no mundo, do contrário, seremos sal sem sabor, que não serve para nada, agimos colocando nossas candeias em baixo da mesa e limitando o agir de Deus através de nossas vidas por meros preconceitos banais, potencializados pela irresponsabilidade dos nossos mestres, que seriam chamados por Jesus de “raça de víboras” e “sepulcros caiados”, chegando, sem sombra de dúvida, a crucificarem-no novamente, assim como fazem com suas “ovelhas” que se desgarram das suas garras afiadas de lobos e rumam a cumprir o que Paulo ensina “sede meus imitadores, como eu sou de Cristo”.
Sei que muitos, vencidos pela exposição bíblica, recorrerão ao novo bordão dos fariseus, que mudam seus meios para continuarem alcançando seus fins legalistas, “vai causar escândalo”. Sobre esse tema escreverei na próxima postagem, buscando desmistificar o assunto à luz do real significado do mesmo nas Escrituras.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

De que berço vem a opinião?


Crio esse Blog para ser um canal de expressão de opiniões que sempre fervilham em minha mente e precisam ser expressadas. Desde muito cedo, como meus mestres do ensino fundamental podem atestar, mostrava-me aguerrido e compelido a ter opinião formada e consistente sobre as diversas facetas desse mundo, e de sua vida cotidiana.
Talvez por isso, tenha escolhido o valoroso ofício de operador do direito, mola mestre da sociedade, vagando ainda na indefinição da ânsia pelo poder de magistrado, pela liberdade do parquet ou pelo dinamismo da advocacia.
Do ponto de vista religioso, tendo uma criação cristã mista, com pai católico e mãe protestante, pude internalizar uma moralidade clerical firme por um lado, junto com uma fé incondicional, de um berço notadamente pentecostal, por outro.
No entanto, diante das patentes e inaceitáveis falhas vivenciadas por um sempre "cético bereiano", rumei ao agnosticismo(para os agnósticos, assim como não é possível provar racionalmente a existência de deuses e do sobrenatural, é igualmente impossível provar a sua inexistência), porém, sem abandonar o contínuo estudo bíblico, muitas vezes, confesso, mais pela sede de adquirir cultura, que conhecimento de Deus, encontrando, na necessidade de reunir-me como igreja, guarida em templos católicos romanos, os quais achava mais aptos à reflexão e à comunhão(apesar de seus erros doutrinários), que os histéricos templos protestantes aos quais tinha acesso.
Até que, aquela definição agnóstica de ser impossível encontrar na minha racionalidade a prova da existência de Deus acabou, quando na minha busca pessoal por Deus em meu quarto, o Espírito Santo veio habitar em mim e tive, enfim, a chamada experiência do "novo nascimento", a qual pôs fim a toda a dúvida e me fez ver como é lógico e claro o plano de Deus para a humanidade.
A partir daí, recebi um convite e passei a congregar em uma maravilhosa comunidade, um tanto sui generis, protestante no sentido histórico da palavra, tendente ao pós-denominacionalismo, anti-formal e anti-sacerdotal, com um líder, notadamente, a frente do seu tempo(bem como do tempo dos membros, o que é o grande problema), a Cidade Viva.
Por outro lado, às vezes sinto falta do rigor formal e da tranqüilidade que a ICAR me trazia. Nesses momentos, passei a encontrar agradabilíssimo refúgio na Igreja Presbiteriana do Brasil, mais contida que minha congregação, no entanto, sem perder a precisão doutrinária(maior até, confesso, que minha congregação), grave problema da ICAR.
No campo político-social-econômico sou um conservador, contrário ao assistencialismo, favorável ao Estado neoliberal de não interferência estatal na economia, limitando-se ao ofício regulatório.
Em todas as áreas, carrego comigo a ética cristã, no entanto, estando sempre pronto a combater os falsos moralistas e hipócritas que teimam em se insurgir quando está a se tratar da defesa dessa bandeira.
Pois bem, é nesse contexto que me encontro inserido, e é dele que virão as opiniões trazidas à baila neste espaço. Espero que os leitores possam apreciar.